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Atrasos salariais e indefinição na gestão suspendem emergência na Maternidade de Referência em Salvador

1 de maio de 2026

Visando apurar denúncias de atraso no pagamento de médicos, o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) realizou, na manhã desta sexta-feira (1º), uma fiscalização na Maternidade Professor José Maria de Magalhães Netto, no bairro do Pau Miúdo, em Salvador. Durante a vistoria, a autarquia constatou que há profissionais sem receber pelos serviços prestados desde fevereiro, situação que comprometeu a composição das escalas, principalmente a de médicos anestesiologistas, e levou à suspensão, por tempo indeterminado, do atendimento de emergência na noite de quinta-feira (30). Com a medida, cerca de 60 gestantes deixam de ser atendidas diariamente na unidade, o que impacta diretamente ao menos 120 vidas.

O diretor técnico da Maternidade, Dr. Pedro Paulo Bastos Filho, informou aos conselheiros e ao médico fiscal do Cremeb que o contrato entre a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e o Instituto de Gestão e Humanização (IGH), empresa gestora da unidade, foi encerrado em fevereiro de 2026, passando a operar, desde março, sob regime indenizatório. “A IGH ganhou a licitação, mas o processo foi suspenso pelo governador. A empresa entrou na Justiça e está operando por meio de uma liminar. Toda essa situação está gerando insegurança entre os profissionais, principalmente, quanto à regularidade do pagamento”, disse.

De acordo com o diretor, o último repasse da Sesab ao IGH foi realizado ontem (30), mas correspondeu apenas a 70% do valor referente ao mês de março. “Dos 301 médicos, 71 ainda não receberam o pagamento de fevereiro. Sou cobrado diariamente pelos colegas, inclusive, hoje recebi uma mensagem às 7h, mas a única coisa que posso fazer é cobrar. Ontem, após orientação de uma conselheira do Cremeb, formalizei dois e-mails solicitando a regularização do pagamento”, declarou. Ele acrescentou que, para garantir a assistência aos pacientes que estão internados, o IGH tem oferecido pagamento à vista do plantão para os anestesiologistas, mas ainda enfrenta dificuldades, recorrendo inclusive a profissionais de outros estados.

Durante a visita, realizada pelo presidente do Cremeb, conselheiro Antônio Azevedo, pelo diretor do Departamento de Fiscalização, Cons. Raimundo Teixeira, pela conselheira Camila Koch e pelo médico fiscal Rod Maiko, foi constatado que não havia falhas nas escalas de obstetrícia e neonatologia. “Aqui conseguimos cobrir as ausências entre nós, mas, mesmo com a porta da unidade fechada, o pré-parto está lotado e a enfermaria também. Isso nos preocupa muito. A gente não fica tranquilo. Somente hoje, já realizamos quatro cesarianas e ainda temos mais sete programadas”, desabafou uma médica obstetra, que preferiu não se identificar.

Segundo a profissional, até o momento, a escala de plantão dos médicos anestesiologistas, com dois médicos por turno, está suprindo a demanda dos pacientes internados: “Com preocupação, mas está, pois hoje, até às 10h, havia apenas um profissional. Sem anestesistas, ficaria completamente inviável”. Na ocasião, o diretor técnico informou ainda que a empresa Live Med rescindiu unilateralmente o contrato no último dia 24, comunicando o encerramento das atividades no dia 30 de abril. “Diante disso, o IGH passou a contratar diretamente os anestesiologistas, com pagamento imediato, como forma de garantir a assistência mínima”, explicou Dr. Pedro Bastos.

“Apesar da suspensão dos atendimentos emergenciais, os pacientes internados na Maternidade, muitos em estado grave, estão com assistência médica garantida, sem comprometimento. Infelizmente, diante do cenário, o diretor técnico foi obrigado a tomar a difícil decisão de fechar a emergência”, esclareceu o presidente do Cremeb. Dr. Antônio Azevedo disse ainda que o Cremeb está adotando todas as providências cabíveis para restabelecer o pagamento dos honorários médicos e possibilitar a normalização do atendimento pleno na unidade. “Essa indefinição sobre qual empresa fará a gestão da maternidade tem gerado insegurança entre os médicos e, consequentemente, impactado a assistência às gestantes”, concluiu.