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Setembro Amarelo: evento reúne APB, Cremeb e Sindimed para debate sobre prevenção do suicídio e saúde mental dos médicos

25 de setembro de 2026

Cuidar de quem cuida também é uma forma de prevenção. Foi a partir dessa perspectiva que médicos se reuniram, na noite desta quarta-feira (23), na sede do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia (Sindimed), em Salvador, para discutir prevenção do suicídio, identificação precoce de pacientes vulneráveis e os desafios relacionados à saúde mental dos próprios médicos.

Realizado pela Associação Psiquiátrica da Bahia (APB), com apoio do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb) e do Sindimed, o evento “Prevenção do Suicídio: médicos enquanto população de risco e a identificação precoce de pacientes vulneráveis na prática clínica” integrou a programação do Setembro Amarelo na Bahia.

A abertura contou com a participação do presidente do Cremeb, Dr. Antônio Azevedo, e do presidente do Sindimed, Dr. Júlio Braga. Também participaram do encontro o presidente da Associação Psiquiátrica da Bahia, Dr. Rogério de Jesus; a médica psiquiatra Sandra Peu, responsável pelo Setembro Amarelo na Bahia e integrante da Câmara Técnica de Psiquiatria do Cremeb; e a conselheira do Cremeb e coordenadora da Câmara Técnica de Psiquiatria, Dra. Miriam Gorender, que também é diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

A importância do médico não psiquiatra na prevenção

Em sua apresentação, Sandra Peu destacou a importância do médico não psiquiatra na identificação precoce de pacientes em risco de suicídio. A especialista explicou que o sofrimento psíquico pode se manifestar por meio de queixas aparentemente físicas, como insônia, cansaço persistente e alterações de apetite. Por isso, ouvir o que está por trás da queixa e perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas são atitudes fundamentais para a prevenção.

“Muitas vezes, o paciente não chega falando de sintomas de doença mental. E na maioria das vezes, o primeiro contato não é com o psiquiatra, o que torna mais necessária ainda a observação do médico que está na atenção primária. Identificar o risco de suicídio também passa por saber escutar aquilo que está por trás da queixa. Perguntar, acolher e investigar pode ser o primeiro passo para sugerir uma nova trilha diante de um quadro de sofrimento”, afirmou.

Além da identificação e da avaliação do risco, Dra. Sandra Peu ressaltou a importância de garantir uma condução adequada do caso, com encaminhamento para os serviços de referência, acompanhamento e articulação entre as redes de apoio do paciente e do próprio serviço de saúde.

A médica também destacou a notificação compulsória dos casos de tentativa de suicídio e violência autoprovocada, que deve ser realizada pelos serviços de saúde, sem que isso substitua o início imediato do tratamento e o seguimento do paciente. Nesse contexto, reforçou ainda a necessidade de capacitação dos profissionais, tanto para reconhecer sinais de risco quanto para conduzir adequadamente o atendimento e garantir o encaminhamento e a continuidade do cuidado.

A saúde mental dos médicos em debate

A saúde mental dos próprios médicos foi o foco da apresentação da Dra. Miriam Gorender. A psiquiatra abordou aspectos relacionados ao comportamento suicida e chamou atenção para a vulnerabilidade específica da categoria médica. “As mulheres médicas, por exemplo, apresentam expectativa de vida de até 20 anos a menos do que a média da população geral, e esse dado é alarmante, precisa ser observado”, destacou.

Segundo os dados apresentados, a taxa de suicídio entre médicos é de duas a três vezes maior que a observada na população geral. A apresentação também discutiu características que podem dificultar a busca por ajuda, como a tendência de colocar a profissão acima de outras dimensões da vida, priorizar o trabalho, adiar planos pessoais e apresentar forte necessidade de realização e reconhecimento.

Nesse sentido, a especialista defendeu uma mudança de cultura dentro da própria categoria, para que médicos estejam mais atentos aos sinais de sofrimento dos colegas e sejam capazes de reconhecer um pedido de ajuda, sem deixar de lado a responsabilidade profissional.

Quadros contemporâneos

O presidente da APB, Dr. Rogério de Jesus, também participou das discussões, comentando os conteúdos apresentados e trazendo questões atuais relacionadas ao agravamento dos problemas de saúde mental.

Entre os temas abordados, esteve a influência do universo das apostas e das chamadas bets sobre a saúde mental. A discussão destacou como a exposição e o envolvimento com esse tipo de prática podem se relacionar a problemas psiquiátricos e ao agravamento de situações de sofrimento, ampliando a necessidade de atenção dos profissionais de saúde para novos fatores de risco presentes na sociedade.

Enquanto médico psiquiatra, ele também chamou atenção para o uso de cigarros eletrônicos, especialmente entre os jovens. Segundo ele, o alto potencial de dependência desses dispositivos representa um importante desafio para a saúde pública, diante da exposição cada vez mais precoce à nicotina e dos possíveis impactos desse consumo na saúde mental e física das novas gerações.

Para o Cremeb, promover espaços de discussão como esse contribui para ampliar o olhar sobre a saúde mental na Medicina, tanto na relação com os pacientes quanto dentro da própria categoria. O debate reforçou que reconhecer sinais de sofrimento, superar estigmas e estimular a busca por cuidado são medidas fundamentais para a prevenção. Os conselheiros Dr. Jecé Brandão e Dr. José Abelardo de Meneses, diretor do Departamento de Defesa das Prerrogativas do Médico (DEPMED), também compuseram a plateia de médicos participantes do evento.