{"id":39708,"date":"2023-07-16T18:49:20","date_gmt":"2023-07-16T21:49:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cremeb.org.br\/?p=39708"},"modified":"2023-07-16T18:49:20","modified_gmt":"2023-07-16T21:49:20","slug":"entrevista-o-check-up-do-figado-pode-salvar-milhares-de-vidas-afirma-dr-raymundo-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cremeb.org.br\/index.php\/noticias\/entrevista-o-check-up-do-figado-pode-salvar-milhares-de-vidas-afirma-dr-raymundo-parana\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA: \u201cO check-up do f\u00edgado pode salvar milhares de vidas\u201d, afirma Dr. Raymundo Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>O pr\u00f3ximo dia 28 de julho marca o Dia Mundial de Luta Contra Hepatites Virais. Pioneiro mundial nas a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o e tratamento dessas inflama\u00e7\u00f5es no f\u00edgado causadas por v\u00edrus classificados pelas letras A, B, C, D e E, o Brasil criou, em 2002, o Programa Nacional de Hepatites Virais (PNHV).\u00a0 Mas o esbo\u00e7o do PNHV se deu ainda em 1999, quando o m\u00e9dico hepatologista e professor titular da faculdade de Medicina da Ufba, Raymundo Paran\u00e1, e o professor Mitermayer Reis, da Fiocruz, foram ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tratar da necessidade de se ter foco nessas enfermidades.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil j\u00e1 era reconhecido pelo programa de HIV e, na \u00e9poca, j\u00e1 se morria mais de hepatites virais do que de HIV. Realmente, s\u00f3 entrou em vigor em 2002, e foi um programa vitorioso, porque mudou completamente a face das hepatites virais no Brasil\u201d, diz Paran\u00e1. Uma d\u00e9cada depois, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade assumiu que as hepatites virais eram um problema global de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, no m\u00eas da campanha Julho Amarelo, institu\u00edda em 2019 para refor\u00e7ar as a\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia, preven\u00e7\u00e3o e controle das hepatites virais, o doutor em Medicina e Sa\u00fade, que \u00e9 l\u00edder do grupo de pesquisa em Hepatites Virais e Hepatotoxicidade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), fala sobre a campanha, outras doen\u00e7as hep\u00e1ticas, e explica por que h\u00e1 poucos hepatologistas no Brasil \u2013 cerca de 500 para 203 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.cremeb.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/lsp_25750475b1ea4ec4ff88fc86b15b9a28_210723-015440.png\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-39709\" src=\"https:\/\/www.cremeb.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/lsp_25750475b1ea4ec4ff88fc86b15b9a28_210723-015440-378x268.png\" alt=\"\" width=\"378\" height=\"268\" \/><\/a><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A hepatite \u00e9 considerada uma doen\u00e7a silenciosa. Qual a melhor estrat\u00e9gia para a preven\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>O que h\u00e1 de caracter\u00edsticas nas doen\u00e7as do f\u00edgado \u00e9 o sil\u00eancio cl\u00ednico. Na maioria dos casos, o indiv\u00edduo n\u00e3o sente absolutamente nada. Costumo dizer para os pacientes que o f\u00edgado \u00e9 como um autom\u00f3vel que tem um tanque principal de 100 litros, um tanque reserva de 200 litros, mas n\u00e3o tem mostrador. O indiv\u00edduo gasta seu tanque principal, vai entrar no reserva e s\u00f3 vai saber quando a m\u00e1quina parar antes de chegar no destino final. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o. Outra quest\u00e3o \u00e9 que um f\u00edgado, sob uma agress\u00e3o qualquer, n\u00e3o vai dar sintoma algum, n\u00e3o d\u00f3i, n\u00e3o d\u00e1 mancha em pele, n\u00e3o d\u00e1 azia nem m\u00e1-digest\u00e3o, nenhum alimento agride o f\u00edgado e nenhum alimento limpa ou desintoxica o f\u00edgado, tudo isso \u00e9 bobagem. Mas quando ele sofre uma agress\u00e3o, se essa agress\u00e3o n\u00e3o for tratada, ele vai responder essa agress\u00e3o produzindo cicatrizes dentro dele, pequenas cicatrizes que n\u00f3s chamamos de fibrose. Isso \u00e9 um processo longo, que demora d\u00e9cadas, e \u00e0 medida que a fibrose progride e coalesce, ela come\u00e7a a obstruir os canais por onde o sangue passa dentro do f\u00edgado para ser depurado. Ao ter essa dificuldade, a\u00ed come\u00e7a uma doen\u00e7a hep\u00e1tica j\u00e1 clinicamente significativa. Entre o in\u00edcio de uma agress\u00e3o e o aparecimento dessa fase l\u00e1 se v\u00e3o em torno de 20 a 40 anos. As hepatites cr\u00f4nicas n\u00e3o fogem \u00e0 regra e a gente tem dois representantes das hepatites cr\u00f4nicas que s\u00e3o majorit\u00e1rios, a hepatite B e a hepatite C, que atingem 400 milh\u00f5es de habitantes do planeta e s\u00e3o respons\u00e1veis por cerca de 700 mil mortes por ano no mundo todo. Aqui no Brasil estima-se mais ou menos 1% da popula\u00e7\u00e3o com uma dessas duas hepatites virais, o que daria em torno de 2 milh\u00f5es de brasileiros. A imensa maioria sem diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p><b>Mas com o sil\u00eancio cl\u00ednico, como se d\u00e1 o diagn\u00f3stico?<\/b><\/p>\n<p>Rastreando. No caso das hepatites virais \u00e9 bem f\u00e1cil o rastreio porque existe o teste r\u00e1pido, que deve estar dispon\u00edvel em todas as unidades de sa\u00fade. O SUS tem o teste r\u00e1pido \u2013 como ele \u00e9 utilizado \u00e9 que \u00e9 o problema \u2013 mas est\u00e1 l\u00e1 dispon\u00edvel. Com uma gotinha de sangue voc\u00ea sabe se o teste \u00e9 positivo ou negativo para hepatite B ou C. S\u00e3o doen\u00e7as que t\u00eam tratamento e tratamentos muito eficazes. No caso da hepatite B n\u00e3o cura, mas controla, n\u00e3o vai vitimar o paciente porque o v\u00edrus \u00e9 desligado pelo medicamento. E temos dois medicamentos no SUS de f\u00e1cil acesso, ambos dispon\u00edveis e extremamente eficazes contra o v\u00edrus da hepatite B. J\u00e1 com a hepatite C o tratamento elimina o v\u00edrus, cura a doen\u00e7a, 12 semanas e o paciente tem 98% de chance de cura. Precisamos rastrear mais, n\u00e3o s\u00f3 as hepatites mas outras doen\u00e7as do f\u00edgado. Todas elas, doen\u00e7as cr\u00f4nicas, s\u00e3o silenciosas, ent\u00e3o, o que eu chamo de check-up do f\u00edgado \u00e9 muito barato: quatro enzimas, a AST, ALT, fosfatase e Gama GT, teste r\u00e1pido para hepatite B e hepatite C e ultrassom. Isso nos ajuda a rastrear um n\u00famero imenso de doen\u00e7as hep\u00e1ticas.<\/p>\n<p><b>O senhor falou dos v\u00edrus B e C como os de maior gravidade, mas existe vacina para a hepatite B, n\u00e3o \u00e9?<\/b><\/p>\n<p>Existe vacina para a hepatite B, est\u00e1 dispon\u00edvel h\u00e1 mais de 30 anos. O Brasil j\u00e1 avan\u00e7ou muito na vacina\u00e7\u00e3o. O problema da hepatite B \u00e9 que ela precisa de tr\u00eas doses, e o intervalo entre as doses \u00e9 longo. Toma uma inje\u00e7\u00e3o hoje, toma outra em 30 dias e outra em seis meses. O que acontece \u00e9 que muita gente toma a primeira, nem todos tomam a segunda e poucos tomam a terceira. N\u00e3o confere um n\u00edvel de imuniza\u00e7\u00e3o ideal.<\/p>\n<p><b>Falamos mais neste m\u00eas sobre esse assunto por causa do Julho Amarelo. A campanha \u00e9 suficiente para o enfrentamento das hepatites?<\/b><\/p>\n<p>Importante \u00e9, porque o 28 de julho \u00e9 Dia Mundial das Hepatites Virais e no mundo todo existem a\u00e7\u00f5es que chamam aten\u00e7\u00e3o para esse tema. Essa foi uma proposta do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do Brasil na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo numa assembleia na ONU por uma provoca\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira de Hepatologia. Foi aceita e, por unanimidade, acatada, para que o mundo todo, no mesmo dia, falasse da doen\u00e7a por ser considerada ainda um flagelo na humanidade e, em alguns pa\u00edses, ainda negligenciada.<\/p>\n<p>Aproveitando a oportunidade do Dia Mundial da Hepatite, de maneira muito perspicaz, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade do Brasil resolveu transformar o m\u00eas todo no Julho Amarelo, onde falamos n\u00e3o s\u00f3 das hepatites, mas de todas as outras doen\u00e7as hep\u00e1ticas que t\u00eam em comum o sil\u00eancio cl\u00ednico. Se a gente quiser enfrentar as doen\u00e7as hep\u00e1ticas, diagnostic\u00e1-las precocemente e retirar de n\u00f3s essa pecha de ter boa parte dos nossos pacientes com doen\u00e7a hep\u00e1tica avan\u00e7ada na hora do diagn\u00f3stico, precisa rastrear, e para rastrear precisa se falar, precisa mobilizar a classe m\u00e9dica para que qualquer especialidade fa\u00e7a esse rastreamento, qualquer uma, n\u00e3o precisa ser hepatologista, e para que as Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade, que \u00e9 o maior problema do Brasil no momento, realmente funcionem, e \u00e9 onde esses pacientes assintom\u00e1ticos deveriam ser mais rastreados, obviamente.<\/p>\n<p>Para que elas funcionem, fiquem alertas e para que o pr\u00f3prio paciente provoque seu m\u00e9dico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de fazer essa investiga\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma verdade para o indiv\u00edduo que consome \u00e1lcool em faixa de risco porque, ao contr\u00e1rio do que as pessoas pensam, n\u00e3o precisa ser um consumo muito elevado; \u00e9 uma verdade para os pacientes que s\u00e3o obesos que t\u00eam altera\u00e7\u00f5es de colesterol, porque desenvolvem uma forma de hepatite chamada esteato-hepatite n\u00e3o alco\u00f3lica; \u00e9 uma verdade para pacientes que usam medicamentos ou fitoter\u00e1picos, ou horm\u00f4nios, porque tamb\u00e9m podem desenvolver uma agress\u00e3o ao f\u00edgado \u2013 isso hoje eu considero uma epidemia por causa das redes sociais que levam conceitos errados e propostas danosas, e os pacientes se submetem a tudo hoje, a qualquer tipo de tratamento e muitos est\u00e3o adoecendo.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante o n\u00famero de pacientes que chegam com doen\u00e7as hep\u00e1ticas j\u00e1 avan\u00e7adas usando essas coisas. \u00c9 uma verdade para as doen\u00e7as autoimunes do f\u00edgado, que s\u00e3o tamb\u00e9m silenciosas por longa data. Quando falamos das hepatites virais, n\u00e3o podemos perder a oportunidade de lembrar que v\u00e1rias outras doen\u00e7as hep\u00e1ticas que evoluem muito semelhantes \u00e0s hepatites virais t\u00eam que entrar tamb\u00e9m nesse processo de rastreamento. Volto a dizer: \u00e9 simples e barato. Todo mundo pensa em check-up do cora\u00e7\u00e3o, check-up urol\u00f3gico ou ginecol\u00f3gico, mas ningu\u00e9m pensa no check-up do f\u00edgado, que \u00e9 muito barato e pode salvar milhares de vidas.<\/p>\n<p><b>H\u00e1 dados sobre o rastreamento?<\/b><\/p>\n<p>Para voc\u00ea ter uma ideia, hoje, nos pa\u00edses mais desenvolvidos, onde se faz o rastreamento de doen\u00e7a hep\u00e1tica, o c\u00e2ncer prim\u00e1rio de f\u00edgado \u2013 que depende das doen\u00e7as do f\u00edgado, porque o paciente que faz c\u00e2ncer \u00e9 aquele que teve uma doen\u00e7a no f\u00edgado silenciosa por muito tempo e a doen\u00e7a evoluiu \u2013 voc\u00ea consegue diagnosticar o c\u00e2ncer do f\u00edgado precoce em 70% dos pacientes. No Brasil, nos melhores centros, a gente n\u00e3o chega a 40% de diagn\u00f3stico precoce, e isso significa que 60% j\u00e1 chegam com doen\u00e7a avan\u00e7ada, quando n\u00e3o \u00e9 mais curativa. Estamos falando de um c\u00e2ncer que cura e esse c\u00e2ncer pode ser relacionado \u00e0s hepatites virais e a todas as outras doen\u00e7as hep\u00e1ticas que evoluem silenciosamente agredindo o f\u00edgado por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><b>E quando a funcionalidade do f\u00edgado se esgota, quanto tempo pode levar at\u00e9 um transplante?<\/b><\/p>\n<p>Varia muito. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds extraordin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o a transplantes. O transplante s\u00f3 era feito pelo SUS at\u00e9 o ano passado, mas no ano passado, de maneira muito correta, ele entrou no rol de procedimentos do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Era inadmiss\u00edvel n\u00e3o ser. O Brasil faz 1800 transplantes por ano. Deveria fazer mais? Com certeza. Mas temos um problema cr\u00f4nico de doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, e a Bahia, particularmente, \u00e9 um dos estados com pior performance em doa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Mas, hoje, o tempo de espera numa lista de transplante na Bahia n\u00e3o est\u00e1 muito grande.<\/p>\n<p>O f\u00edgado n\u00e3o precisa de nada mais do que o grupo sangu\u00edneo para compatibilidade, da agilidade na capta\u00e7\u00e3o de doadores, da oferta da doa\u00e7\u00e3o \u2013 que passa pela consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o e pelas equipes dos hospitais e UTIs que identifiquem morte cerebral dos pacientes \u2013 mas depende tamb\u00e9m da press\u00e3o na lista de transplantes. Temos hoje na Bahia um volume imenso de pacientes com doen\u00e7a hep\u00e1tica avan\u00e7adas e poucos pacientes na lista, em torno de 30, s\u00f3. \u00c9 uma discrep\u00e2ncia absurda. O que significa isso? Que os pacientes est\u00e3o por a\u00ed e n\u00e3o est\u00e3o sendo encaminhados, est\u00e3o perdidos.<\/p>\n<p><b>Por que isso ocorre?<\/b><\/p>\n<p>Existem poucos hepatologistas no Brasil, em torno de 500 para 203 milh\u00f5es de habitantes. Algumas especialidades acabam atendendo pacientes hepatopatas: gastroenterologistas, cl\u00ednicos e at\u00e9 infectologistas trabalham porque a demanda \u00e9 imensa. Existem estados da federa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o t\u00eam nenhum hepatologista no servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade.\u00a0\u00a0 Os hepatologistas, como s\u00e3o raros, est\u00e3o mais concentrados em grandes cidades e em cl\u00ednicas privadas, obviamente existe uma demanda. H\u00e1 uma s\u00e9rie de distor\u00e7\u00f5es para que o paciente com doen\u00e7a cr\u00f4nica de f\u00edgado n\u00e3o tenha uma jornada f\u00e1cil no sistema de sa\u00fade e n\u00e3o seja reconhecido nem encaminhado precocemente para os centros de transplante.<\/p>\n<p>Se formos observar a Bahia, temos refer\u00eancia em Salvador e RMS, o Hospital das Cl\u00ednicas, o Cedap [Centro Estadual Especializado em Diagn\u00f3stico, Assist\u00eancia e Pesquisa] e consult\u00f3rios privados em Feira de Santana, Ilh\u00e9us e Itabuna. No restante, n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia consolidada, pode ter um ou outro profissional atendendo, mas n\u00e3o tem um servi\u00e7o de refer\u00eancia que avalie um paciente com doen\u00e7a grave ou avan\u00e7ada. \u00c9 um grande problema que temos: encher as listas de transplante e pressionar o transplante hep\u00e1tico no Brasil, e isso s\u00f3 vai se resolver formando mais hepatologistas e capilarizando o sistema, estamos longe disso ainda.<\/p>\n<p><b>O que o levou a escolher a hepatologia como especializa\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Vou falar por que a hepatologia atrai pouco. O modelo de remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dica hoje desprivilegia o saber m\u00e9dico. O que mais se remunera hoje \u00e9 o procedimento e a alta tecnologia. Conhecimento m\u00e9dico \u00e9 desprivilegiado, porque quando o indiv\u00edduo n\u00e3o tem procedimentos ele vive da consulta. Se voc\u00ea observar a remunera\u00e7\u00e3o que um m\u00e9dico recebe na consulta \u00e9 uma remunera\u00e7\u00e3o, no SUS, de R$ 10 a R$ 12. Num plano de sa\u00fade, pode variar de R$ 60 a R$ 120, na maioria. A cl\u00ednica privada, menos de 5% dos m\u00e9dicos conseguem fazer. As especialidades que s\u00e3o meramente cl\u00ednicas, que dependem da consulta e do saber m\u00e9dico, que s\u00e3o a base da boa medicina, s\u00e3o as piores remuneradas. Ent\u00e3o, o jovem estudante fareja isso desde cedo.<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 busca especialidades que tenham procedimentos porque sabe que \u00e9 garantida a remunera\u00e7\u00e3o. Por exemplo, um gastroenterologista tem a op\u00e7\u00e3o de fazer hepatologia, mas quando aprende a fazer colonoscopia, endoscopia e outros procedimentos, \u00e9 muito melhor remunerado por isso, ent\u00e3o, para ele, \u00e9 melhor fazer um procedimento do que ter um paciente cirr\u00f3tico, que d\u00e1 um trabalho grande, ent\u00e3o, acaba n\u00e3o atraindo. Coisa semelhante est\u00e1 acontecendo com outras especialidades tamb\u00e9m, a pneumologia, por exemplo, segue esse caminho, a pr\u00f3pria pediatria est\u00e1 seguindo esse caminho. As nossas resid\u00eancias m\u00e9dicas nessas especialidades que n\u00e3o t\u00eam procedimentos e que dependem muito de estudar, de ter conhecimento m\u00e9dico, discernimento, est\u00e3o diminuindo a demanda.<\/p>\n<p>\u00c9 uma invers\u00e3o de valores absurda, tem isso no mundo todo, mas no Brasil est\u00e1 muito acentuado esse problema. Ent\u00e3o, tem essa quest\u00e3o do desencorajamento e falta de atrativos para um jovem. Agora, o que voc\u00ea me perguntou e que me toca. O que me atraiu? Eu sou um indiv\u00edduo que gosta da academia, sou professor universit\u00e1rio, gosto de fazer pesquisa e a hepatologia \u00e9 um campo aberto para isso. Uma especialidade extremamente ampla. Para mim, \u00e9 a maior especialidade da cl\u00ednica m\u00e9dica, precisa fazer cl\u00ednica m\u00e9dica para fazer uma boa hepatologia e foi isso que me atraiu, como atraiu outros 500 hepatologistas no Brasil, mas talvez, a gera\u00e7\u00e3o atual, que \u00e9 mais pragm\u00e1tica, j\u00e1 n\u00e3o pense mais como a minha gera\u00e7\u00e3o. Obviamente, as coisas v\u00e3o mudando com o tempo, os jovens de hoje s\u00e3o muito mais pragm\u00e1ticos, n\u00e3o s\u00e3o sonhadores nem pagam pra ver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FONTE: Revista Muito | Jornal A Tarde (<a href=\"https:\/\/dev.atarde.com.br\/muito\/raymundo-parana-o-check-up-do-figado-pode-salvar-milhares-de-vidas-1235548\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/dev.atarde.com.br\/muito\/raymundo-parana-o-check-up-do-figado-pode-salvar-milhares-de-vidas-1235548<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00f3ximo dia 28 de julho marca o Dia Mundial de Luta Contra Hepatites Virais. 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